As primeiras palavras de Meiga Flor, também conhecida como Linda Flor, ou Iaiá, acabaram se tornando nome definitivo da bela canção composta por Henrique Vogeler, em 1928.

Compositor. Pianista. Regente. Orquestrador. Letrista.

Nasceu na Rua Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. Filho do economista alemão naturalizado brasileiro Carlos Conrado Guilherme Von Vogeler e de sua segunda esposa, Maria da Conceição Lenes Resende Vogeler, natural de Goiás. Foi batizado na Igreja de Sant’Ana, no dia 18 de outubro de 1888. O pai era um apaixonado pelo Brasil. Detestava que zombassem de seu sotaque, a ponto de estudar profundamente a língua portuguesa e sua prosódia, tornando-se professor de português. Era também músico. Tocava oficlide.

Tinha três irmãos do primeiro casamento do pai com Apolônia Francisca da Costa Vogeler, falecida muito jovem: Albertina, Carlos (de apelido Missionô), bom pianista, e Jorge, desenhista e futuro pai do famoso cantor Jaime Vogeler. Do segundo casamento de seu pai com a bela, segundo familiares, mulata Maria da Conceição, foi o caçula. Antes dele vieram Leontina e Eponina. Além dos irmãos de sangue, teve também um de criação, Jesuíno.

Começou a estudar piano com a irmã, Albertina, que dava lições ao outro irmão, Jorge, enquanto o caçula observava. Aos sete anos compôs sua primeira música, “A volta de Júpiter”, que era, segundo Hélio Tys, uma canção cheia de latidos e barulhenta, composta num momento de alegria. Na ocasião, seu cachorrinho Júpiter reapareceu, depois de ter sido expulso de casa. Compôs, logo depois, outra canção que os amigos intitularam “Careca gostoso”.

Morou no Catumbi e posteriormente mudou-se para uma grande casa em Todos os Santos, bairro do Rio de Janeiro. Em 1900, passou a estudar no Colégio São Bento. Fez o curso secundário no Colégio Universitário. Em 1906, foi obrigado a abandonar os estudos devido a problemas financeiros. Conseguiu emprego na Estrada de Ferro Central do Brasil, como praticante de conferente, por intermédio de seu irmão Guilherme. Cursou o Conservatório Nacional de Música, tendo completado os estudos possivelmente em 1909. Casou-se aos 30 anos com uma viúva chamada Erastime.

Segundo Tinhorão, era este o perfil de Vogeler: “dono de temperamento bonachão, o pianista e compositor – que por essa época cultivava um belo bigode negro, e tinha o hábito de tocar chupando a bochecha, num tique particular – transformou-se na atração das coristas do teatro musicado”.

Ficou também célebre o seu bom coração. Conta-se que, um dia, entregou à empresária Maria Amorim (que estava decidida a se atirar do oitavo andar de um prédio, por conta de suas dívidas) os oito contos de réis que ganhou num concurso internacional de música.

Aos 50 anos, foi viver tranquilamente em uma casa adquirida na Rua Engenhoca 151, na Ilha do Governador. Passou bom tempo nadando e pescando com o barco batizado de “Peru”. Mesmo depois de seu retorno à vida musical, buscava o refúgio do mar, sempre que podia.

Em maio de 1944, foi internado no Hospital do Pronto Socorro, na Praça da República, a fim de ser operado de uma úlcera intestinal. Uma complicação obrigou os médicos a submetê-lo a uma segunda intervenção cirúrgica. Embora em estado grave, duas horas antes de falecer, ainda demonstrava seu bom-humor, segundo episódio contado por Hélio Tys em “Talento de Vogeler – compositor carioca” (artigo publicado em “O Dia”, Rio de Janeiro, 18 de outubro de 1964, caderno D, p. 1). No artigo, Tys nos conta que na tarde em que o compositor faleceu, uma banda podia ser ouvida de seu quarto, executando, à entrada do Superior Tribunal Militar, um dobrado. A enfermeira perguntou-lhe: “Incomoda-o, maestro, esta música?” “Não, ele respondeu, ao contrário. O que me irrita é a falta de ouvido do regente. Repare como estão desafinados os instrumentos”. Segundo Tys, antes de falecer o compositor sussurrou no ouvido de um sobrinho a frase: “La comedia è finita”.

O compositor faleceu no dia 9 de maio de 1944, aos 56 anos de idade. Foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier, no Caju. Villa-Lobos compareceu. Na hora em que o caixão desceu à sepultura, o maestro, chorando, exclamou: “Perdi meu braço direito!”. (dicionariompb)

Mas por que tantos nomes para uma composição? A história é longa e saborosa, e como se trata do primeiro samba-canção lançado em disco no Brasil, merece ser relembrada.
Findava a década de 20, e o teatro de revista era o grande balão de ensaio das canções que depois ganhavam as ruas e as ainda incipientes ondas do rádio. Vogeler, pianista experiente, acabara de compor a dengosa melodia, e Dulce de Almeida a queria para a peça A Verdade Ao Meio Dia, uma comédia argentina de J.G.Traversa (La Hija de Papá, na versão original).
O teatrólogo Candido Costa logo tratou de colocar os versos, ao estilo da época, recheada de beletrismos:

Linda flor
tu não sabes, talvez,
Quanto é puro o amor
Que me inspiras, não crês.
Nem, sobre mim eu olhar,
veio um dia pousar!…
E aindas aumenta a minha dor
Com cruel desdém!
Teu amor
Tu por fim me darás
E o grande fervor
Com que te amo verás
Sim, teu escravo serei
E a teus pés cairei
Ao te ver, minha, enfim (…)

Mesmo com o fracasso da peça, a canção Linda Flor foi lançada por nada menos que Vicente Celestino, que derramou seu estilo épico sobre o disco que, pela primeira vez, trouxe no selo a classificação de “samba-canção-brasileiro”, em 1928. Para os historiadores tornou-se um marco, mas para Vogeler foi um desastre, que ele tentou consertar arrumando um novo letrista. SFA-Vicente CelestinoAfinal, aquele negócio de “teu escravo serei/ e a teus pés cairei” não era o que ele ouvia nas ruas da Lapa, por mais bêbado que estivesse um infeliz apaixonado.
Outro homem de teatro foi convocado, Freire Junior, mas as alterações foram poucas. Linda Flor virou Meiga Flor, e Francisco Alves regravou, em 1929.

Meiga Flor,
Não te lembras, talvez,
Das promessas de amor, .
Que te fiz, já não crês (…)

Chico Alves crescia na preferência popular e caminhava para a consagração, mas isso não foi suficiente para o compositor. A nova letra ainda o incomodava. É então que topa com Luís Peixoto, teatrólogo, letrista e parceiro de vários bambas da MPB. Peixoto já vinha burilando uma linguagem popular, mais próxima do vocabulário cotidiano. O (futuro) autor de Na Batucada da Vida (com Ary Barroso), não negou fogo. Muda radicalmente a letra, coloca palavras usadas coloquialmente e condenadas pelos acadêmicos e, principalmente, altera o gênero do emissor da mensagem. É uma mulher, Iaiá, falando de seu Ioiô. Coube a Araci Cortes, que no ano anterior tinha lançado o maxixe Jura, de Sinhô, imortalizar a letra definitiva na revista Miss Brasil:

Zilda de Carvalho Espíndola, cantora e atriz, nasceu no Rio de Janeiro RJ em 31/3/1906. Filha do chorão Carlos Espíndola, até os 12 anos morou no bairro do Catumbi, onde foi vizinha de Pixinguinha. Após alguns anos vivendo com a madrinha, deixou a família aos 17 anos, passando a atuar em circos.

Cantava e dançava maxixes no Circo Democrático, da Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro, quando foi descoberta por Luís Peixoto e levada a fazer teatro de revista. Com o pseudônimo de Araci Cortes, que lhe foi dado por um jornalista de A Noite, fez grande sucesso nas décadas de 1920 e 1930. Sua estréia ocorreu em 1922, na revista Nós pelas costas, de J. Praxedes, com música de Pedro Sá Pereira, no Teatro Recreio, do Rio de Janeiro.

Foi responsável pelo lançamento de diversos compositores em revistas da Praça Tiradentes, como Ari Barroso, Zilda do Zé, Benedito Lacerda e outros. Em 1923 já era intérprete consagrada, com o sucesso do samba Aí, madama, incluído na revista Que pedaço, de Sena Pinto, com música de Paulino Sacramento, no Teatro Recreio.

Em 1928, atuou na revista Miss Brasil, de Luís Peixoto e Marques Porto, cantando o samba-canção Iaiá (Linda Flor), com música de Henrique Vogeler, e uma terceira letra, Iaiá, ioiô, já então de Luís Peixoto. A peça foi sucesso em dezembro de 1928 e janeiro de 1929, e sua interpretação dessa música, gravada na Parlophon, chegou a fazer sucesso no Carnaval de 1929. Ainda em 1928, na peça Microlândia, de Luís Peixoto, Marques Porto e Afonso de Carvalho, com música de Serafim Rocha e Sinhô, fez com grande êxito o lançamento do samba amaxixado Jura (Sinhô).

Na revista Laranja da China, de Olegário Mariano, com música de Júlio Cristóbal, Pedro Sá Pereira e Ari Barroso, encenada no Teatro Recreio, interpretou o samba Vamos deixar de intimidade, responsável pelo lançamento de Ari Barroso como compositor.

Nos anos 1930, Aquarela do Brasil de Ary Barroso teve a primeira audição na voz de Aracy Cortes. Em 1932, na revista Angu de caroço, de Carlos Bittencourt, Luís Iglésias e Jardel Jércolis, estreada no Teatro Carlos Gomes, apresentou-se com grande êxito, ao lado de Sílvio Caldas, interpretando o samba Mulato bamba (Ari Barroso), e em 1939, novamente no Teatro Recreio, atuou na revista Entra na faixa, de Luís Iglésias e Ari Barroso.

Apesar da intensa atividade artística, sempre destacando-se como atriz e cantora, em 1943 deixou o palco, retornando dez anos depois, com o mesmo sucesso.

Em 1965 o poeta e compositor Hermínio Belo de Carvalho promoveu sua volta ao palco, no show Rosa de ouro, no teatro Jovem, do Rio de Janeiro, no qual se apresentou ao lado de Paulinho da Viola e Clementina de Jesus.

Entre os seus grandes sucessos como cantora, estão ainda Quem me compreende (Bernardino Vivas e Ari Barroso), Tem francesa no morro, maxixe que marcou a estréia de Assis Valente como compositor, e Os Quindins de Iaiá (Pedro Sá Pereira e Cardoso de Meneses). (letras.com.br)

Ai, Ioiô,
Eu nasci pra sofrer
Fui oiá pra você,
Meus oinho fechô
E quando os óio eu abri
Quis gritá, quis fugi
Mas você…
Eu não sei porque
Você me chamô
Ai, ioiô,
Tenha pena de mim,
Meu Sinhô do Bonfim
Pode inté se zangá
Se ele um dia soubé
Que você é que é
o ioô de iaiá!
Chorei toda noite, pensei
Nos beijos de amor que te dei
Ioiô, meu benzinho, do meu coração
Me leva pra casa, me deixa mais não!

Os barbarismos podem ter escandalizado os mais conservadores, mas a melodia finalmente encontrou sua melhor tradução verbal. Os ecos da escravidão ainda eram bem presentes, e o lamento de uma escrava (“eu nasci pra sofrer”) apaixonada pelo senhor (Ioiô) era uma leitura possível, e ousada. Mas também podia ser apenas simbólico, uma tradução em linguagem popular do “teu escravo serei” da primeira versão. Em acurada análise, Luiz Tatit aponta no livro O Século da Canção (Ateliê Editorial, 2004) que se “Meu Sinhô do Bonfim/ pode inté se zangar/ se ele um dia souber/ Que você é que é/ O ioiô de iaiá”, alguma subversão da ordem existe aí embutida. Por que o Senhor iria se zangar de um amor puro e sincero nos idos de 29?

Tatit elogia o “casamento perfeito” entre letra e melodia, e a coloca como marco inaugural da era de ouro do rádio, que se inicia na década de 30. Um historiador minucioso como José Ramos Tinhorão alicerça a tese, ancorado em documentos e entrevistas (Pequena História da Música Popular, Vozes, 1975) .
Vale lembrar que uma obra inovadora como Porgy and Bess, de Gershwin, que também rompia preconceitos linguísticos reproduzindo a fala popular dos negros norte-americanos, só foi lançada em 1935, quando Ai, Ioiô já era cantada em todo o Brasil.

Henrique Vogeler tornou-se diretor artístico das gravadoras Brunswick e Odeon. Como pianista, gravou registros históricos de Ernesto Nazareth. Mais tarde, foi assistente de Villa-Lobos. Peixoto continuou dedicado ao teatro com grande sucesso, mas sempre ligado à música. A parceria com Ary Barroso rendeu sucessos na voz de Carmen Miranda e Silvio Caldas, entre outros. É Luxo Só se consagrou na voz de Elizeth Cardoso.
Eram as pessoas certas, no momento certo, sintonizadas com a mudança de uma época. O resultado é definitivo. Os Ioiôs arrasaram. E Iaiá Araci, só por esta, já estaria na História!


Por Daniel Brazil (revistamusicabrasileira)

SFA-LindaFlor