Fagner e Heckel Tavares – O que “Casa de Caboclo” e “Penas do Tiê” têm em Comum?

No seu primeiro disco, intitulado “Manera Fru Fru”, o cantor cearense Raimundo Fagner gravou a música “Penas do Tiê”, tendo como convidada especial a cantora Nara Leão. A singela composição viria trazer uma série de transtornos para o cantor de Orós, que chegou a enfrentar um longo processo por plágio. A canção, na verdade, é do alagoano Heckel Tavares em parceria com Nair de Andradee foi editada em 1928. Originalmente, se chamava “Você”.Raimundo Fagner

Em entrevistas, o cantor cearense se defendeu da acusação alegando que agira de boa-fé, recebera informação de que a obra fazia parte do folclore e, acreditando tratar-se domínio público, teria feito algumas adaptações. O filho de Tavares não aceitou as explicações e manteve a ação por plágio, com pedido de uma considerável indenização.

Autor da música origem, Heckel Tavares era um respeitado maestro, compositor, pianista, arranjador e folclorista. Como tantos outros grandes músicos brasileiros, andava esquecido. Teve sua fase áurea no primeiro quarto do século com composições de reconhecida qualidade, transitando entre o erudito e o popular. Contou com grandes parceiros, dentre eles, Luiz Peixoto, o autor da terceira e definitiva letra do clássico “Ai, Ioiô” (Linda Flor).

Heckel Tavares

O interessante, nesta história toda, é que, apesar de ter mais de 150 composições, o maestro, guardadas as devidas proporções, também foi noticia de uma suposta apropriação indevida. Trata-se da música “Casa de Caboclo”, uma canção sertaneja que se notabilizou por popularizar a expressão “Um é pouco, dois é bom, três é demais”, atribuída ao alagoano em parceria com Luiz Peixoto. A lendária maestrina Chiquinha Gonzaga, segundo a pesquisadora Edinha Diniz, em seu livro “Chiquinha Gonzaga – Uma história de Vida”, reclamou a autoria de “Casa de Caboclo” em uma ata da reunião da diretoria da SBAT – Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, ocorrida em 8 de outubro de 1928. Com os seguintes argumentos:

“[…] Passando-se à ordem do Dia e interesses sociais, pediu a palavra d. Francisca Gonzaga, para reclamar sobre suas composições musicais que estão sendo impressas e gravadas em discos, sob autoria de diversos senhores, como por exemplo, a canção “Fogo, foguinho”, da opereta Juriti, gravada em disco Odeon, como sendo da lavra de Américo Giacomini; a canção “Bela rosa, da peça “Não venhas”, representada em 1904, no Teatro Apolo, impressa pela Casa Vieira Machado, com o título de “Casa de caboclo”, como sendo de autoria do Sr. Heckel Tavares, e também gravada pela Odeon […]. A oradora solicita providências da SBAT para que cesse de uma vez essa apropriação indébita e prejudicial aos seus interesses e de seu nome”.

Edinha Diniz. ft. O'Neil Chiquinha Gonzaga é reconhecida como uma das pioneiras na luta pelos direitos autorais no Brasil e, devido ao ainda incipiente instituto de direito autorais da época, era vítima de constantes plágios, não só de músicas isoladas, mas até de peças inteiras, como é o caso de “Juriti”, apresentado, em 1925, na Bahia com o nome de Juraci.

Chiquinha Gonzaga- (Foto-Dedoc)

Na ata da SBAT, curiosamente, a grande maestrina não citou Luiz Peixoto, o parceiro de Heckel Tavares em “Casa de Caboclo”. Peixoto era um velho companheiro e admirador da pioneira maestrina. Com ela, montou várias operetas, e revistas, a exemplo da histórica burleta “Forrobodó”.

Não cabe aqui fazer juízo de valor sobre os motivos que levaram a dupla a compor a canção e provocar a ira da maestrina e, até mesmo, se a denúncia da autora de “Lua Branca” é procedente, mas me arrisco em algumas considerações. O fato é que o talento musical, tanto de Heckel quanto de Peixoto, é inquestionável, comprovado por um vasto repertório de grandes canções. Heckel, reconhecidamente, era um pesquisador apaixonado por temas regionais. O compositor foi criado em Maceió e, nas palavras do Dicionário Cravo Albim, “convivendo com a música tradicional dos repentistas, cantadores de desafios, reisados e congadas, que teriam forte influência em sua música”. Portanto, é difícil imaginar um plágio voluntário de um profundo estudioso. A proximidade com “Chiquinha da Polca”, principalmente por parte de Peixoto, talvez tenha influenciados a dupla, já há muito tempo envolvida com peças e teatros de revistas. Um reforço a esta tese é o registro na Biografia de Luiz Peixoto, escrita por Lysias Enio e Fernando Vieira. Luiz PeixotoNo livro “Luiz Peixoto – Pelo buraco da fechadura”, os autores informam , de forma instigante, que a parceria musical Heckel-Peixoto começou em 1918 e que as primeiras composições da dupla “nasceram nos libretos das revistas musicadas por Chiquinha Gonzaga, José Nunes, Júlio Cristobal e outros”, sem, entretanto, se referir de forma explícita à acusação da pianista, o que, talvez, reforce uma possível influência recebida, mas não deixa claro o rótulo de plágio.

Um artigo publicado no site Cifrantiga também ameniza a acusação, dando a seguinte abordagem:

“[…] Como acontece muitas vezes a músicas de sucesso, houve, à época do lançamento, quem considerasse “Casa de Caboclo” plágio de um tema de Chiquinha Gonzaga, levando a discussão aos jornais. Daí a informação que figura em algumas de suas regravações: “Canção baseada em motivos de Chiquinha Gonzaga”.

Rosa NepomucenoRosa Nepomuceno, no seu livro “Música Caipira: da roça ao rodeio”, embora sem se aprofundar, também se refere ao fato, indo um pouco além do termo “Canção baseada sobre motivos de Chiquinha Gonzaga”, acrescentando que tais motivos seriam trechos da modinha “Bela Rosa”. Vejamos o que diz a escritora:

“Heckel Tavares vivia na cidade maravilhosa e compôs, nessa época, alguns de seus maiores sucessos: “Sussuarana”, em 1927, e no ano seguinte “Casa de Caboclo” com letras do poeta niteroiense Luis Peixoto […]. A última canção, sobre motivos da maestrina Chiquinha Gonzaga (trechos de sua modinha “Bela Rosa” [“…]” .

O certo, nesta história toda, é que “Casa de Caboclo” tornou-se um grande sucesso na voz de Gastão Formenti em 1928 e foi regravada várias vezes por muita gente boa: Inezita Barroso, Paulo Tapajós, Carlos Galhardo, Renato Teixeira, Luiz Gonzaga e até pelo ex-jogador de futebol Sócrates. A música inspirou uma verdadeira febre de canções com argumentos sertanejos no final dos anos 20 e serviu, posteriormente, de modelo para outros grandes sucessos, inaugurando uma sucessão de singelas canções sertanejas baseadas em comoventes tragédias pessoais. Quem não se lembra de “Chico Mineiro e Menino da Porteira”?

Por sua vez, o caso do cantor Fagner, independentemente dos motivos que o levou a gravar “Penas do Tiê”, restou um evidente benefício para a música brasileira: mesmo que involuntariamente, a polêmica ajudou a resgatar a obra de Heckel Tavares. Clássicos com Suçuarana, Guacyra, Azulão, Leilão, dentre outros, voltaram a ser gravados, saindo do restrito âmbito dos tenores e sopranos de óperas. Um do justo reconhecimento a um dos grandes nomes da música do país.